Em novembro de 2025, os passageiros de comboios em Portugal enfrentam uma das maiores perturbações dos últimos anos: CP - Comboios de Portugal alertou para a possibilidade de atrasos e cancelamentos em massa, após Sindicato Nacional dos Trabalhadores do Setor Ferroviário (SNTSF) e Sindicato Ferroviário da Revisão Comercial Itinerante (SFRCI) convocarem greves simultâneas. A medida, que atinge os serviços Alfa Pendular, Intercidades, Interregional e Regional, não é apenas um protesto pontual — é o sintoma de uma crise mais profunda entre salários, condições de trabalho e as limitações de um governo em gestão.
Por que os trabalhadores estão em greve?
"É quase uma imposição", disse Abílio Carvalho, representante do SNTSF, à agência Lusa. O sindicato exige um aumento salarial real, não o mero 0,9% oferecido pela CP em 2025 — um valor que, segundo ele, não acompanha a inflação dos últimos 18 meses, que ultrapassou os 5% em vários meses. Mas o problema vai além do dinheiro. Carvalho aponta para uma pressão crescente sobre os funcionários: "Os trabalhadores têm de recorrer quase obrigatoriamente ao trabalho extraordinário". Em muitos casos, isso significa dias de descanso cancelados, fins de semana perdidos e turnos que se estendem além do previsto — tudo sem compensação adequada.A situação é agravada pela escassez de pessoal. Desde 2023, a CP não conseguiu repor as equipas que deixaram a empresa por aposentadoria ou demissão. Hoje, há menos 12% de maquinistas e operadores em comparação com 2022. "Não é só questão de salário. É questão de dignidade", afirmou um maquinista que preferiu não se identificar. "Trabalhamos como se fôssemos máquinas. E quando algo falha, somos nós que pagamos a conta."
Quem está em greve e quando?
A greve não é unificada. O SNTSF convocou um pré-aviso de greve para todo o mês de novembro, abrangendo trabalho extraordinário, em dias de descanso e em feriados. Já o SFRCI marcou uma paralisação entre 7 e 14 de novembro, focada nos operadores de revisão e venda — os profissionais que controlam a segurança e a venda de bilhetes em estações e comboios.A CP respondeu com um comunicado datado de 3 de novembro de 2025, negando "de forma categórica" que haja riscos à segurança. A empresa afirma que "todas as intervenções de manutenção são escrupulosamente executadas" e que os planos de inspeção estão em dia. Mas os sindicatos contestam: "Se os planos estão em dia, por que há tantas falhas técnicas? Por que os comboios chegam atrasados com frequência?"
Para tentar acalmar a situação, a CP anunciou que contratou 28 novos operadores de revisão e venda em 2025 — e que outros 21 serão integrados ainda em novembro. Mas os sindicatos dizem que isso é insuficiente. "É como colocar um esparadrapo numa hemorragia", comentou um membro do SFRCI. "Eles não resolvem o problema estrutural: o sistema está esgotado."
O governo em gestão e a barreira dos 4,7%
Aqui está o ponto crítico: o Governo está em gestão. Isso significa que não pode aprovar aumentos salariais que ultrapassem o limite de 4,7% na massa salarial total — um teto fixado em despacho anterior. O ministro das Infraestruturas e Habitação, Miguel Pinto Luz, reconheceu isso em declarações no Aeroporto Internacional da Madeira, em 25 de novembro de 2025: "Sabemos que a greve é injusta, não estávamos à espera dela. Mas também não podemos violar a lei."Ele acrescentou que o Executivo está "em diálogo estreito" com os sindicatos — mas sem promessas concretas. "Não estamos em causa interesses partidários. Estamos em causa interesses nacionais."
Os sindicatos, porém, lembram que em abril de 2025 houve um acordo prévio sobre a reestruturação das tabelas salariais — um acordo que a CP alega ter "reduzido quase para metade" os custos iniciais. "Fizemos o nosso esforço", disse um dirigente sindical. "Agora é a vez da empresa cumprir."
Como os passageiros serão afetados?
A CP garantiu que quem tiver bilhete para os serviços afetados poderá optar por reembolso total ou revalidação gratuita para outro comboio da mesma categoria e classe. Mas isso não resolve o problema real: a incerteza. Quem precisa viajar para o Algarve, Porto ou Braga em pleno fim de semana de novembro — talvez para um casamento, um funeral ou um tratamento médico — enfrenta o risco de ficar parado.As filas nas estações já começaram a crescer. Em Lisboa Oriente, no dia 1º de novembro, 37% dos passageiros disseram que estavam "muito preocupados" com a possibilidade de perda de dias de trabalho ou de férias. "Já perdi um voo por causa de um atraso em maio. Não quero repetir isso", contou uma turista de Coimbra.
O que vem a seguir?
A CP tem até 15 de novembro para apresentar um novo plano de negociação. Mas o tempo está curto. O SNTSF já ameaçou alargar a greve a todos os serviços, incluindo os urbanos, se não houver avanço. O SFRCI, por sua vez, pede uma reunião urgente com o Ministério das Infraestruturas — algo que ainda não foi marcado.Enquanto isso, os maquinistas continuam a trabalhar sob pressão. Um deles, com 22 anos de serviço, me disse: "Se eu me aposentar amanhã, não me arrependo. Mas não quero que o meu filho entre aqui. Este sistema está a morrer de negligência."
Contexto histórico: greves no setor ferroviário
Esta não é a primeira vez que a CP enfrenta greves simultâneas. Em 2021, uma paralisação de 11 dias afetou 800 mil passageiros. Em 2023, o Sindicato dos Maquinistas (SMAQ) bloqueou o transporte entre Lisboa e Porto por três dias, exigindo melhores condições de segurança. Mas nunca antes houve tanta fragmentação de sindicatos, nem tantas reivindicações sobrepostas.A CP, por sua vez, diz que está "no limite das suas capacidades financeiras". Em 2024, a empresa registou prejuízo de 112 milhões de euros — o pior da última década. Mas os sindicatos lembram que, em 2022, o Estado injetou 1,3 mil milhões de euros em subsídios diretos. "Se o dinheiro existe para os aeroportos, por que não para os comboios?"
Frequently Asked Questions
Como posso saber se o meu comboio vai sair no dia da greve?
A CP atualiza o estado dos comboios em tempo real no portal cp.pt e pela linha 808 109 110. Mas atenção: mesmo que o comboio conste como "em operação", pode haver atrasos significativos ou substituições por autocarros. Recomenda-se verificar duas vezes, especialmente entre 7 e 14 de novembro, quando a greve do SFRCI está em vigor.
Por que o governo não autoriza um aumento maior, mesmo sendo um governo de gestão?
O limite de 4,7% na massa salarial é um despacho governamental de 2023, válido mesmo em gestão. Embora não seja uma lei, é um compromisso administrativo vinculativo. Qualquer aumento acima disso exigiria uma alteração ao Orçamento do Estado, algo que só pode ser feito por um governo eleito. Por isso, mesmo que o ministro queira ajudar, não tem poder legal para alterar essa regra.
Quais sindicatos estão envolvidos além do SNTSF e SFRCI?
Além desses dois, o Sindicato dos Maquinistas (SMAQ) também está em estado de alerta, embora ainda não tenha convocado greve. Outros grupos, como o Sindicato dos Técnicos de Manutenção e o Sindicato dos Funcionários de Estação, ameaçam aderir se a situação não for resolvida até o fim de novembro. A fragmentação sindical torna as negociações mais complexas, mas também mais legítimas — pois reflete a diversidade de reivindicações dentro da própria CP.
O reembolso total é garantido mesmo se eu não cancelar o bilhete?
Sim. A CP garante reembolso total ou revalidação gratuita para todos os bilhetes comprados para os serviços afetados — mesmo que o comboio saia, mas com mais de 30 minutos de atraso. Basta apresentar o bilhete na bilheteira ou solicitar online. O sistema automático de reembolso, no entanto, está sobrecarregado. Por isso, o mais seguro é ir pessoalmente a uma estação com o comprovativo da viagem prevista.
Há precedentes de greves que duraram mais de um mês na CP?
Sim. Em 2011, uma greve geral dos ferroviários durou 42 dias, paralisando quase todo o sistema. Em 2016, uma paralisação de 17 dias provocou perdas de 120 milhões de euros. O que diferencia 2025 é a combinação de múltiplos sindicatos, a crise de pessoal e a pressão política. Ninguém espera uma greve tão longa, mas a tensão acumulada pode forçar os trabalhadores a prolongar a ação se não houver respostas concretas.
O que pode mudar depois das eleições de 2026?
Se o próximo governo eleito priorizar o transporte público, há espaço para reabrir o acordo de reestruturação salarial, reforçar a contratação de pessoal e aumentar o investimento em manutenção. A CP tem dívidas de 1,8 mil milhões de euros — mas também tem ativos valiosos, como a rede de alta velocidade. O que falta é vontade política. A greve de novembro pode ser o alerta final que força esse debate.
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