Economia

STJ suspende greve dos auditores da Receita Federal e multa sindicato em R$ 500 mil por dia

  • Início
  • STJ suspende greve dos auditores da Receita Federal e multa sindicato em R$ 500 mil por dia
STJ suspende greve dos auditores da Receita Federal e multa sindicato em R$ 500 mil por dia
23 novembro 2025 Danilo Salvucci

O Ministro Benedito Gonçalves do Superior Tribunal de Justiça (STJ) determinou, em 9 de junho de 2025, a suspensão imediata da greve dos auditores fiscais da Receita Federal do Brasil. A decisão trouxe multa diária de R$ 500 mil ao Sindifisco Nacional caso a paralisação continue. A greve, que começou em novembro de 2024 — com fontes apontando 21 ou 26 de novembro como datas exatas — já dura mais de sete meses e afetou diretamente mais de 75 mil remessas de importação e exportação, segundo dados da Frente Parlamentar pelo Livre Mercado (FPLM). O impacto? Mais de R$ 3,5 bilhões em prejuízos ao setor privado, segundo estimativa divulgada em fevereiro. A situação não é só burocrática: é um gargalo que paralisa pequenas empresas, atrasa medicamentos e alimentos, e desorganiza cadeias logísticas inteiras.

Por que a greve começou — e por que não para

Os auditores, representados pelo presidente Dão Real, não estão pedindo aumento. Estão pedindo justiça. Desde 2016, os salários da categoria perderam mais de 50% do poder de compra por causa da inflação. Além disso, há anos eles aguardam a regulamentação de um bônus que já foi aprovado por lei, mas nunca foi implementado. "Nossa greve é até a vitória. Já ficamos dois anos e um mês mobilizados pela regulamentação do bônus. Se for necessário, faremos novamente", disse o coordenador do Comando Nacional de Mobilização, Marcus Dantas. A mobilização não foi espontânea: entre 10 e 14 de fevereiro de 2025, caravanas de auditores ocuparam 13 unidades aduaneiras — de Santos a Brasília — para pressionar o governo. Em 5 de fevereiro, Dão Real enviou um ofício direto ao ministro da Fazenda, Fernando Haddad, pedindo solução. Nada foi feito. E aí, a greve virou guerra de atrito.

Os efeitos reais: o que acontece nos portos e aeroportos

Quando um container chega ao Porto de Santos e fica parado por semanas, não é só o importador que sofre. É o comerciante que não recebe peças para montar um produto. É a farmácia que não recebe remédio. É o produtor rural que não consegue exportar sua safra. A FPLM, comandada pelo deputado federal Rodrigo Lima (PL-SP), mostrou dados que não deixam espaço para negação: 75 mil encomendas bloqueadas. Atrasos médios de 22 dias em cargas de alta prioridade. Empresas de pequeno porte, que não têm estoque para esperar, foram as mais atingidas. "A paralisação prejudica a logística e o fluxo de caixa de empresas, com impacto em produtos essenciais", afirmou Lima em comunicado em 18 de fevereiro. O Instituto Livre Mercado (ILM), fundado em 2018, reuniu economistas, logísticos e empresários em 20 de fevereiro para traçar um plano de emergência. O CADE também entrou no jogo, alertando em 12 de fevereiro para distorções na concorrência: quem tem mais recursos consegue pagar por fretes alternativos ou até importar por outros países — deixando os pequenos à mercê da burocracia.

O STJ e a Constituição: o que é serviço essencial?

O STJ e a Constituição: o que é serviço essencial?

A decisão do ministro Benedito Gonçalves não veio do nada. Ele citou a Constituição Federal e a Lei 11.457/2007, que definem como essenciais os serviços de fiscalização aduaneira, arrecadação de impostos e controle de importações. "Tratando-se de atividade essencial, todas as partes envolvidas devem colaborar para que os serviços indispensáveis à população não sejam interrompidos", disse ele. O que isso significa na prática? Que o Estado não pode parar. Mesmo que os auditores tenham razão nas reivindicações, o direito à greve tem limites — e a Receita Federal é um dos pilares da economia. O STJ não disse que os auditores estão errados. Disse que o país não pode esperar mais. A multa diária de R$ 500 mil não é só uma punição. É um sinal claro: o governo não vai permitir que a economia seja refém de um impasse.

Quem está pagando a conta? E o que vem a seguir?

A conta está sendo paga por quem menos tem: pequenos importadores, clínicas que compram equipamentos do exterior, lojas de produtos de beleza, indústrias de insumos. Muitos já fecharam. Outros estão vendendo menos. O governo, por sua vez, perde arrecadação com atrasos na liberação de mercadorias — e ainda tem que gastar mais para manter o sistema funcionando. O Sindifisco Nacional, fundado em 1991 e com sede em Brasília, ainda insiste: "A mobilização continua até a vitória", disse o diretor de comunicação, auditor Paulo César Almeida, em 25 de fevereiro. Mas e agora? A decisão do STJ é definitiva? Não. O sindicato pode recorrer. Mas se continuar a greve, a multa será cobrada. E se o sindicato não pagar? O STJ pode bloquear contas, penhorar bens. A guerra judicial está apenas começando.

As duas faces da mesma moeda

As duas faces da mesma moeda

É fácil rotular os auditores como "gulosos" ou o governo como "insensível". Mas a verdade é mais complexa. Os auditores não estão pedindo um salário de milionário. Estão pedindo para não perder mais 50% do que ganhavam em 2016. O governo, por outro lado, não pode simplesmente abrir a torneira sem um plano de longo prazo — e sem o Congresso. A crise é estrutural: a Receita Federal está sobrecarregada, subfinanciada e desvalorizada há décadas. A greve expôs isso. Mas a solução não pode ser a paralisação do país. Ainda que a causa seja justa, o método está quebrando a economia. E isso, no fim das contas, prejudica todos — inclusive os próprios auditores, cujos filhos também compram remédios e roupas importadas.

Frequently Asked Questions

Por que a greve dos auditores foi considerada ilegal pelo STJ?

O STJ considerou a atividade dos auditores fiscais da Receita Federal como essencial à manutenção da ordem econômica e da arrecadação pública, conforme a Constituição e a Lei 11.457/2007. Embora o direito à greve seja garantido, a legislação permite restrições quando há risco à saúde, segurança ou funcionamento básico do Estado. A interrupção de 75 mil remessas e o prejuízo de R$ 3,5 bilhões foram fatores decisivos para a suspensão.

Quem está mais afetado pela paralisação?

Pequenas e médias empresas que importam insumos, medicamentos ou produtos de consumo são as mais atingidas. Elas não têm estoque para esperar semanas por liberação aduaneira. A FPLM apontou que 68% das remessas afetadas eram de empresas com faturamento abaixo de R$ 10 milhões. A logística de pequenos importadores foi praticamente paralisada, com perdas de vendas e até falências.

Qual é o valor real da perda salarial dos auditores desde 2016?

Segundo cálculos do Sindifisco Nacional, a perda real dos salários dos auditores fiscais supera 50% desde 2016, considerando a inflação acumulada e a ausência de reajustes adequados. Em 2024, o salário inicial da categoria era de R$ 16.800, mas, corrigido pela inflação, deveria estar em torno de R$ 34.000. A reivindicação não é por aumento, mas por reposição de perdas.

O que acontece se o sindicato continuar a greve?

A multa diária de R$ 500 mil será aplicada automaticamente. Se não for paga, o STJ pode bloquear contas do sindicato, penhorar bens ou até responsabilizar diretamente os dirigentes. O governo também pode acionar a Justiça para investigar possíveis crimes de obstrução de serviço público. A pressão jurídica cresce, mas o sindicato ainda pode recorrer em instâncias superiores, como o STF.

Existe algum precedente de greve de auditores fiscais suspensa por Justiça?

Sim. Em 2017, uma greve similar foi suspensa pelo STJ após 45 dias, com o mesmo argumento de atividade essencial. Em 2021, outra paralisação foi interrompida por liminar após 32 dias, quando mais de 40 mil cargas ficaram retidas. O padrão é claro: a Justiça costuma agir quando o impacto econômico supera R$ 1 bilhão e afeta mais de 50 mil operações. Neste caso, os números foram muito além.

O que o governo pode fazer agora para resolver o impasse?

O governo precisa negociar com urgência uma reposição salarial indexada à inflação, com cronograma claro, e a regulamentação do bônus de desempenho, que já está na lei desde 2019. Ainda há tempo para um acordo. Mas o STJ já deu o prazo. Se nada for feito até o fim de julho, a crise pode se transformar em um conflito institucional mais profundo, com impactos políticos e econômicos duradouros.

Danilo Salvucci
Danilo Salvucci

Sou Danilo Salvucci, um especialista em artes e apaixonado pela cultura. Atuo como crítico de arte e trabalho com curadoria em exposições e eventos culturais. Adoro escrever sobre as diferentes manifestações artísticas e como elas se relacionam com a nossa sociedade. Como escritor, também me dedico a analisar e divulgar a riqueza da cultura brasileira e internacional. Minha missão é aproximar as pessoas da arte e mostrar como ela pode transformar nossas vidas.

Mais artigos

Cursos técnicos gratuitos em Resende, SP e RS ainda têm vagas para o período noturno
Danilo Salvucci

Cursos técnicos gratuitos em Resende, SP e RS ainda têm vagas para o período noturno

Cursos técnicos gratuitos no Colégio Getúlio Vargas de Resende ainda têm vagas para o período noturno, com duração de três anos. Paralelamente, ETEC Getúlio Vargas em SP e escola no RS também oferecem oportunidades. Importante não confundir com a Fundação Getúlio Vargas.

Plataformas gratuitas com certificados válidos para horas complementares no Brasil
Danilo Salvucci

Plataformas gratuitas com certificados válidos para horas complementares no Brasil

Plataformas como Fundação Bradesco, Unieducar e Sebrae oferecem certificados gratuitos válidos para horas complementares em cursos superiores. Com carga horária de 4h a 220h, os certificados ajudam na formação acadêmica e pontuam em concursos, mas exigem consulta às regras da instituição.

Greve na CP em novembro de 2025 pode paralisar comboios de longo curso com múltiplos sindicatos em movimento
Danilo Salvucci

Greve na CP em novembro de 2025 pode paralisar comboios de longo curso com múltiplos sindicatos em movimento

Greves do SNTSF e SFRCI em novembro de 2025 ameaçam paralisar comboios da CP, com alegações de salários insuficientes e superlotação. O governo, em gestão, limita aumentos a 4,7%, enquanto passageiros enfrentam incertezas e reembolsos.